Rainha Carlota Joaquina por IA
...Disse ou não disse?.. Limpou os pés com pó do Brasil?
...Provavelmente,não...
🗨️👑📜⌛
RM.
...
"“Desta terra eu não levo nem o pó”: Carlota Joaquina realmente sacudiu os sapatos ao deixar o Brasil?
A cena é perfeita demais para ser esquecida — e talvez perfeita demais para ser verdadeira. Ao deixar o Brasil em 1821, D. Carlota Joaquina teria batido os sapatos contra a amurada do navio e declarado: “Desta terra eu não levo nem o pó”. A imagem atravessou gerações e parece resumir todo o desprezo que a rainha supostamente sentia pelo país onde vivera durante treze anos. O problema é que, quando procuramos essa história nas fontes próximas aos acontecimentos, os famosos sapatos simplesmente não aparecem.
Não há dúvida de que Carlota desejava regressar à Europa. Sua permanência no Rio de Janeiro, iniciada com a transferência da corte portuguesa em 1807-1808, significava afastamento da Península Ibérica e das questões dinásticas espanholas que tanto a interessavam. Em 1813, escrevendo a José Presas, chegou a afirmar que, se permanecesse muito tempo ali, morreria. Assim, quando D. João VI finalmente decidiu retornar a Portugal, em 1821, a rainha certamente não partiu contrariada.
Isso, porém, não prova a célebre cena dos sapatos. A historiadora Francisca Nogueira de Azevedo, que estudou a correspondência de Carlota, encontrou várias tentativas da rainha de deixar o Brasil, mas não uma declaração inequívoca de ódio ao país. Para Carlota, o Brasil parece ter representado sobretudo um exílio político, longe da Espanha e de suas ambições dinásticas.
Jean-Baptiste Debret, que viveu no Rio entre 1816 e 1831, atribuiu à rainha uma frase depreciativa segundo a qual ela teria se alegrado por retornar a uma terra “habitada por homens”. É um testemunho importante, embora publicado anos depois. Ainda assim, mesmo em Debret não aparece a história de Carlota batendo ou limpando os sapatos.
Curiosamente, existe um episódio quase idêntico, mas ligado a outra pessoa. Em 21 de novembro de 1812, Luís Joaquim dos Santos Marrocos, funcionário da Real Biblioteca e profundamente insatisfeito com sua vida no Rio de Janeiro, escreveu à família que, quando pudesse partir, não esqueceria de “limpar as botas à borda do Cais, para não levar o mínimo vestígio da terra”. A frase está documentalmente preservada e foi escrita quase nove anos antes da partida de Carlota.
A semelhança é impressionante. A historiadora Raquel Stoiani chamou atenção para esse paralelo em sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo. Não é possível provar que alguém simplesmente transferiu a frase de Marrocos para a rainha, mas a existência desse testemunho anterior torna bastante plausível que tradições diferentes tenham se misturado com o tempo.
E quando os sapatos de Carlota aparecem efetivamente por escrito? Uma das versões mais antigas localizáveis surge apenas em 1911, noventa anos depois dos acontecimentos, num texto de Vieira Fazenda preservado na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Nessa versão, Carlota teria chegado a Lisboa e lançado ao mar os sapatos trazidos do Rio para não pisar Portugal levando nas solas terra brasileira. A frase “Desta terra eu não levo nem o pó” ainda não aparece.
Em 1926, a história já estava diferente. A Revista Marítima Brasileira publicou outra versão, introduzida por um revelador “Conta-se que...”: agora Carlota tirava os sapatos ainda no embarque e os lançava ao mar. Nos anos seguintes, a anedota foi repetida em livros e periódicos, até se transformar em narrativa escolar aparentemente incontestável.
A literatura e o cinema terminaram de fixá-la no imaginário popular. O romance Carlota Joaquina — A Rainha Devassa, de João Felício dos Santos, publicado em 1968, retomou a cena, e o filme Carlota Joaquina: Princesa do Brazil, de Carla Camurati, ajudou a torná-la praticamente inseparável da personagem.
Portanto, Carlota Joaquina realmente bateu os sapatos antes de deixar o Brasil? Até hoje, não existe prova contemporânea segura de que tenha feito isso ou pronunciado a famosa frase. O que podemos afirmar é que ela desejava regressar à Europa, que palavras hostis lhe foram atribuídas por Debret e que, anos antes, Santos Marrocos realmente escreveu que limparia as botas para não carregar consigo a terra brasileira.
A ironia é excelente: o homem que de fato escreveu sobre limpar os sapatos acabou permanecendo no Brasil até morrer. Carlota, que conseguiu voltar à Europa, parece ter herdado os sapatos dele apenas décadas depois — não no cais do Rio de Janeiro, mas nas páginas da memória histórica.
Texto: Renato Drummond Tapioca Neto
Imagem: Cena gerada por I.A."
Fonte: Rainhas Trágicas - Mulheres, Guerreiras, Soberanas (Facebook)
https://www.facebook.com/share/1GvgWgBiRn/
#CarlotaJoaquina
#HistóriaDoBrasil
#FamíliaRealPortuguesa